A amostra foi constituída por 12 atletas juniores do sexo masculino, com uma média de idades de 18.6±0.5 anos, tendo todos garantido mínimos de participação para os campeonatos nacionais de juniores. Foram recolhidos dados referentes à anamnese do treino da época desportiva de 1998, nomeadamente de volumes e intensidades de treino. Os atletas foram sujeitos a dois testes distintos realizados com um intervalo máximo de 7 dias relativamente à competição de 800m. Para avaliação da capacidade aeróbia, utilizámos o limiar aeróbio-anaeróbio (LAA) de Mader et al. (72), determinado através de um teste de terreno realizado numa pista sintética de 400m, tendo os atletas realizado 4 patamares de carga com incrementos de 0.4 m/s e velocidades de corrida entre 3.8 e 5.8 m/s, de acordo com o seu nível competitivo. No final de cada patamar foi retirada uma amostra de sangue capilar do lóbulo da orelha. Para avaliação da capacidade anaeróbia láctica recorremos ao teste de duas velocidades (T2v) (73), utilizando como distâncias 2x300m percorridas a intensidades de 80-85% e superiores a 95% da velocidade máxima, respectivamente. O tempo de recuperação entre cada patamar foi de 25 min. Após cada repetição foram obtidas amostras sanguíneas no lóbulo da orelha no 1º, 3º, 5º, 7º, 10º e 12º min de recuperação para determinação da lactatemia máxima. Foi ainda determinada a concentração máxima de lactato após uma competição de 800m (C800) utilizando os procedimentos anteriores. Todos os doseamentos sanguíneos de lactato foram efectuados com um Yellow Springs Instruments-1500L Sport.
Quanto aos resultados obtidos, os atletas realizaram 6.66±0.49 sessões de treino por semana (sem), com um volume de corrida contínua de 66.66±14.97 km/sem. Efectuaram 2 treinos intervalados/sem utilizando distâncias entre os 200 e os 2000m, e um volume de treino láctico de 3.38±0.38 km/sem. A velocidade de corrida correspondente à concentração de 4 mmol/l (V4) média determinada foi de 4.76±0.36 m/s. Os valores de lactato máximo após o teste de duas velocidade (LMT2v) e a competição de 800m (LMC800) foram de 14.52±1.46 mmol/l e 15.09±1.48 mmol/l, respectivamente. A velocidade de corrida nos 800m (VC800) foi de 6.76±0.20 m/s e a V4 determinada pelo T2v (V4T2v) foi de 6.36±0.36 m/s. A análise da regressão linear efectuada evidenciou um r=0.89 (p=0.0001) entre a VC800 e V4T2v. Os resultados da regressão (Y=-3.86 +1.28x) entre a marca aos 800 e a V4LAA, revelaram uma correlação de r=0.77 (p<0.05). A correlação entre a melhor marca aos 800 e o LMT2v, não evidencia significado estatístico (r=0.30; p<0.05). Os resultados da regressão entre o LMT2v e o LMC800, (Y=1.63+0.93x) foram altamente significativos (F=47.55, p=0.0001): r2 = 83% e epe = ±0.65 mmol/l. Os resultados da regressão (Y=-6.03 +1.59x) entre a marca aos 800 e a V4T2v, revelaram uma correlação de 0.89 (p<0.0001).
As principais conclusões do nosso estudo foram: (a) Os dados relativos à anamnese do treino evidenciaram a elevada dependência da prestação nos 800m relativamente ao volume de treino anaeróbio. Já no que se refere ao trabalho aeróbio, não foi encontrada uma relação significativa entre a performance e o volume de corrida contínua; (b) Apesar dos níveis de capacidade aeróbia (V4LAA) evidenciarem uma correlação significativa com a VC800, existem outros factores que devem ser considerados para explicar performances distintas; (c) Apesar da proximidade dos valores relativos ao LM obtido no T2v e na C800m, não foi encontrada uma relação causal entre estes dados e a prestação em 800m. Com efeito, os melhores atletas não são necessariamente os que apresentam uma maior acumulação de lactato após esforços máximos; (d) Adicionalmente, os corredores da nossa amostra evidenciaram uma fraca capacidade anaeróbia, traduzida por baixos valores de LM pós-esforço máximo, comparativamente aos valores referidos na literatura para especialistas nesta distância; (e) Os nossos dados sugerem que o T2v pode ser usado como um importante meio para avaliar a capacidade anaeróbia neste tipo de corredores, uma vez que o LMT2v (2x300m) está altamente correlacionado com o obtido após a competição (LMC800); (f) O valor encontrado para a V4 a partir do T2v traduz uma clara sobrevalorização deste indicador, quando comparado com o resultado obtido com base no protocolo de determinação do limiar aeróbio-anaeróbio (V4LAA); (g) No entanto, a elevada correlação entre a V4LAA e V4T2v permite-nos sugerir que o T2v é susceptível de poder vir a ser igualmente utilizado para fornecer dados relevantes acerca da capacidade aeróbia, o que se traduziria por vantagens evidentes em termos de economia de tempo e de meios. Contudo, será ainda necessária investigação adicional, envolvendo amostras mais alargadas, para se chegar a resultados mais definitivos; (h) A elevada correlação entre a V4T2v e a VC800, permite sugerir que a primeira possa, eventualmente, vir a ser utilizada como preditora da prestação em 800m.