Rolim R, Conceição F e Colaço P (2004). O quadro competitivo jovem do atletismo federado. Propostas para a sua remodelação/renovação. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 4 (2): 370.
O quadro competitivo do atletismo federado em Portugal, particularmente aquele que se circunscreve ao estádio de treino de base, (idades entre os 10 – 14/15 anos - escalões de benjamins, infantis e iniciados) constitui-se como principal referência do treinador para a condução do processo de formação desportiva dos jovens atletas. No entanto, o quadro competitivo vigente para estes escalões, de forma mais hegemónica no caso dos benjamins e infantis, está longe de constituir o farol mais apropriado para o treinador conduzir o processo de formação dos jovens atletas. Por outras palavras, um sistema competitivo especializado, tal como se verifica no Atletismo, vai reclamar um sistema de preparação desportiva equivalente.
Existe, assim, um descompasso e desfasamento entre os quadros competitivos do Atletismo ao dispor dos jovens atletas e aquilo que é preceituado e comummente aceite pela comunidade científica para a formação e treino desportivo dos jovens.
Perante isto, é ao treinador que caberá, em última análise, distinguir e discernir para cada jovem, aquilo que ele necessita e lhe é mais apropriado em cada momento da sua formação desportiva e do seu desenvolvimento global. Assim, o último crivo repousará na qualidade de formação e ética do treinador.
Todavia, pela experiência que temos e pelo conhecimento profundo da realidade, não raras vezes, constata-se que, mesmo os treinadores mais bem formados e informados são frequentemente impelidos a trilhar o caminho da busca célere do rendimento, resvalando para uma precoce especialização dos seus atletas.
Em Portugal, segundo Rolim (1999), estes fenómenos da especialização e treino intensivo precoce têm vindo a fazer parte do quotidiano do atletismo jovem, com particular ênfase nas disciplinas de meio-fundo e fundo.

Conscientes de que treino e competição constituem as faces duma mesma moeda (processo de formação); cientes do significado e importância da competição e convictos de que os fenómenos acima realçados estão fortemente relacionados com: (i) o actual sistema especializado de competição do atletismo jovem e, (ii) a total permissão de participação competitiva unilateral dos jovens, é nosso objectivo avançar com uma proposta, de certa forma inovadora, para a renovação e reorganização dos quadros competitivos do Atletismo jovem e para a regulamentação da sua participação competitiva, visando atenuar e, se possível, erradicar o actual panorama.
Assim, tendo por desígnios:
não descaracterizar nem desvirtuar a essência do Atletismo, tal como se tem observado com algumas propostas recentes, de operacionalidade duvidosa, para a renovação da competição;
transmitir variabilidade à participação competitiva e indirectamente ao processo de formação e treino seguidos, apelando à atenção dos treinadores e jovens para períodos ou ciclos de formação e competição em torno dos grupos disciplinares do Atletismo (corridas – saltos – lançamentos);
promover um equilibrado desenvolvimento técnico, coordenativo e condicional dos jovens, facto que exige uma criteriosa selecção das disciplinas mais estruturantes e apropriadas para incluir o quadro competitivo do Atletismo, em cada etapa do processo de formação e,
ter em atenção que, tal como o processo de formação no estádio de treino de base, a participação competitiva deve evoluir gradualmente de uma banda larga (participação eclética) para uma banda estreita (participação numa só disciplina),
a nossa proposta prevê:

renovar e reformular o actual quadro competitivo do atletismo jovem de pista, através da utilização de um sistema competitivo híbrido de grupos de provas combinadas com evolução trimestral, marcado pela periodização das actividades escolares dos jovens;

sugerir dois sistemas de avaliação da participação competitiva dos jovens:
a) sistema de avaliação objectivo do desempenho na competição, tendo por base a performance (avaliação quantitativa) e,
b) sistema de avaliação subjectivo do desempenho na competição, tendo por base a qualidade técnico-motora e táctica demonstrada (avaliação qualitativa).