Faria L e Colaço P (2004). Determinação das concentrações lácticas obtidas em treinos com vista à melhoria do sistema anaeróbio aláctico em velocistas. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 4 (2): 239.
A prescrição de treinos para o desenvolvimento da potência anaeróbia aláctica pode facilmente levar o atleta a elevadas concentrações lácticas se as distâncias e os intervalos de recuperação não forem criteriosamente seleccionados. Procuramos assim com este estudo determinar se as sessões de treino normalmente definidas para a melhoria do sistema anaeróbio aláctico se traduzem em baixas lactatémias após esforço. Neste sentido, verificámos as diferenças obtidas nas concentrações lácticas entre as distâncias normalmente identificadas como mínimas e máximas na prescrição do treino anaeróbio aláctico, bem como as variações que a adopção de diferentes tempos de intervalo podem originar na acumulação láctica.
A Amostra foi constituída por 4 atletas velocistas, do sexo masculino, com uma média de idades de 22±3 anos. Os atletas foram sujeitos a 4 testes de avaliação distintos, com um período de tempo decorrente entre eles de 2 dias. Foram assim, utilizados testes nas distâncias de 30 e 60 metros, tendo sido realizadas 8 repetições para cada uma destas distâncias que foram repetidas com diferentes intervalos de recuperação (3 e 6 minutos). Os testes foram realizados numa pista sintética ao ar livre bem protegida do vento. Os tempos foram obtidos através da utilização de células fotoeléctricas. No final de cada repetição foi retirada uma amostra de sangue capilar do lóbulo da orelha. Após a ultima repetição de cada teste foram obtidas amostras sanguíneas no lóbulo da orelha no 3º, 5º, 7º, 10º e 12º min de recuperação para determinação da lactatémia máxima. Todos os doseamentos sanguíneos de lactato foram efectuados com um Yellow Springs Instruments-1500L Sport.
Quanto aos resultados obtidos no teste de 30 metros os atletas obtiveram tempos de 4.30s±0.19s e 4.31±0.23s respectivamente para intervalos de 3 e 6 minutos e com as respectivas concentrações lácticas de 6.89±2.21 mmol/l e 3.46±0.73 mmol/l. Para os testes de 60 metros foram obtidos tempos de 7.85±0.49s e 7.77±0.3s com concentrações lácticas de 10.26±3.36 mmol/l e 9.17±2.95 mmol/l respectivamente para intervalos de 3 e 6 minutos.
Deste modo as principais conclusões do nosso estudo foram: (1) a distância de 30 metros percorrida com intervalos de recuperação de pelo menos 6 minutos, permite a realização de treinos com baixas acumulações lácticas. Porém o mesmo já não acontece com a realização de intervalos de 3 minutos, pelo que a selecção dos intervalos para treinos com esta distância pode ser determinante para cumprir os fins a que se destina o treino prescrito; (2) Na distância de 60 metros independentemente dos intervalos seleccionados, a acumulação láctica obtida durante o treino sugere-nos que esta distância não será a mais adequada para sessões de treino com vista à melhoria da potência anaeróbia aláctica de velocistas; (3) A selecção dos intervalos para sessões de treino anaeróbio aláctico, mostraram-se determinantes para garantir que os objectivos destes treinos sejam cumpridos; (4) Os nossos resultados sugerem-nos que grande parte do treino prescrito para melhorar a potência anaeróbia aláctica de velocistas, pela maioria dos treinadores pode assumir uma componente láctica elevada o que trará consequências evidentes não só num deficiente cumprimento dos objectivos das sessões de treino, como numa possível acumulação excessiva de treinos com características lácticas elevadas no microciclo semanal do velocista.