Colaço P, Bragada J, Pedro F (2004). Determinação da velocidade máxima aeróbia em atletas de elite e em indivíduos moderadamente treinados através de um teste laboratorial e um de terreno. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 4 (2): 239.
A avaliação fisiológica de corredores tem sido ao longo dos últimos anos, uma preocupação crescente no sentido de se encontrarem as melhores formas de potenciar o seu rendimento. Deste modo, este estudo foi realizado para verificar se o Teste de Terreno da Universidade de Montreal (TTUM), constitui uma alternativa possível para a obtenção da Velocidade Máxima Aeróbia (VMA), evitando deste modo, a avaliação em condições laboratoriais por vezes inacessíveis ao atleta, bem como a alteração das características mecânicas a que os atletas normalmente treinam e competem. Deste modo o presente estudo teve como principais objectivos: (i) determinar a validade do TTUM para a determinação indirecta da VMA; (ii) verificar se existem diferenças na validade do teste de acordo com o nível de rendimento da amostra; (iii) determinar as inter-relações entre os dados obtidos nos testes seleccionados.

A amostra deste estudo foi constituída por 24 indivíduos do sexo masculino, divididos em 2 grupos de 12 elementos: um constituído por corredores de bom nível de rendimento e outro por estudantes de Educação Física. A amostra do grupo de atletas apresenta uma média de idades de 27.2±4.7. O grupo de estudantes de Educação Física, tem uma média de idades de 21.6±1.2. Para avaliação em tapete rolante foi utilizado um protocolo contínuo, de intensidade progressiva. Os incrementos foram de 1km/h e a duração de cada patamar foi de 2 minutos. O teste compreendeu 4 a 6 patamares. O consumo de oxigénio foi medido respiração a respiração (breath-by-breath), utilizando o analisador de trocas respiratórias da Cortex: Metalyser 3B. Os valores do VO2 relativo (ml/kg/min) em cada patamar, foram calculados com base na média dos últimos 30s. Na avaliação de terreno, o TTUM foi realizado numa pista sintética de 400 metros, marcada de 25 em 25 metros, de modo a permitir o controlo de intensidades de corrida ao longo do teste. De modo a que o atleta pudesse controlar a sua velocidade, foram dados sinais acústicos correspondentes aos tempos de passagem para cada 25 metros. O incremento entre cada patamar foi de 1 km/h.

Quanto aos resultados obtidos, o grupo de atletas (grupo a) obtiveram um valor de VO2max de 78±5.21 ml/kg/min enquanto que os alunos de Educação Física (grupo b) ficaram por valores de 58.64±7.57 ml/kg/min. No que diz respeito à VMA, determinada em tapete rolante, o grupo a obteve uma média de 21.51±0.91 km/h, e o grupo b 16.16±1.84 km/h. No que diz respeito à VMA determinada a partir do TTUM, o grupo a obteve 21.67±0.81 km/h e o grupo b 17.8±1.61 km/h. No grupo de corredores, a relação entre os valor de VMA no tapete e na pista (TTUM) mostrou-se altamente significativa (r=0.90, p<0.0001). Estes níveis de correlação já não se evidenciaram na relação entre o VO2max e a VMAtapete nem entre o VO2max e a VMATTUM. No grupo de alunos de Educação Física, o nível de correlação entre a VMAtapete e a VMATTUM, foi inferior (r=0.84, p=0.0007), com a relação entre o VO2max e VMAtapete e entre o VO2max e a VMATTUM a não apresentar significado estatístico. Se tivermos em conta a totalidade da amostra, os resultados da regressão (y=0.08x+13.05) entre as duas VMA (tapete e TTUM) revelam uma correlação de 0.97 (p<0.0001). Neste caso, a correlação entre o VO2max e a VMAtapete e entre o VO2max e a VMATTUM são altamente significativas (r=0.92, p<0.0001; r=0.88, p<0.0001, respectivamente).

As principais conclusões do nosso estudo foram: (i) o TTUM, apresenta-se como um teste de terreno válido para avaliar o metabolismo aeróbio, tanto em indivíduos altamente treinados como em indivíduos moderadamente activos; (ii) este estudo sugere que o TTUM pode ser utilizado para prescrever intensidades de treino aeróbio; (iii) não podemos estabelecer uma relação de causa efeito entre os valores de VO2max e de VMA, uma vez que os dados sugerem que nem sempre os indivíduos que têm melhores valores de VO2max são os que apresentam melhores níveis de velocidade máxima aeróbia.