Colaço P, Santos P e Rodrigues dos Santos J (2002). A utilização do teste de duas velocidades para avaliação da prestação anaeróbio em corredores de 400m e 800m. III Simpósio Internacional em Treinamento Desportivo. Universidade Federal da Paraíba.
A avaliação da prestação anaeróbia é especialmente importante para corredores de 400m e 800m já que a prestação nestas disciplinas tem uma grande dependência da glicólise. Contudo, a selecção de métodos de avaliação crediveis e capazes de distinguir diferentes níveis de prestação anaeróbia tem sido particularmente dificil. Deste modo, o propósito deste estudo foi de aplicar o teste de duas velocidades (Mader et al, 1980) e verificar a sua validade para corredores de 400m e 800m. A amostra deste estudo foi constituida por 13 corredores de 400m e 12 corredores de 800m, que realizaram um teste de terreno constituido por 2 repetições de 300m com intensidades de corrida respectivamente de 80-85% e >95% da sua velocidade maxima. O tempo de recuperação entre as repetições foi de 25min. As amostras foram obtidas a partir do lóbulo da orelha ao 1º, 3º, 5º 10º e 12º minutos de recuperação. A concentração maxima de lactato sanguíneo (LM) foi também determinada (durante a mesma semana) após uma competição, utilizando os mesmos procedimentos. A concentração de lactato sanguíneo foi obtida utilizando um YSI-1500L Sport. Para o tratamento estatístico foi utilizado o modelo de regressão linear e o coeficiente de correlação de Pearson. Para o grupo de corredores de 800m o valor médio do LM foi respectivamente de 14.52±1.46mmol/l e 15.09±1.48mmol/l para o teste de duas velocidades e competição correspondendo a uma velocidade maxima de 7.65±0.36m/s e 6.54±0.26m/s. Em relação aos corredores de 400m o valor médio de LM foi de 15.90±1.77mmol/l e 16.79±1.92mmol/l respectivamente para o teste de duas velocidades e competição, correspondendo a uma velocidade maxima de 7.99±0.27m/s e 7.59±0.23m/s. Os principais resultados foram: (1) os valores de LM obtidos após o teste não evidenciam correlação com os resultados no final da competição em qualquer um dos dois grupos; (2) os valores de LM obtidos no final do teste de duas velocidades e na competição foram altamente significativos (F=47.55, p=0.0001) nos corredores de 800m com um r2=83% e um erro padrão de estimativa=0.65mmol/l; (3) o LM obtido no final do teste de duas velocidades e competição não evidencia significado estatístico no grupo constituído por corredores de 400m.
As conclusões são: (1) Os valores de LM obtidos utilizando o teste de duas velocidades não nos permitem estabelecer relações com as prestações competitivas nas provas de 400m e 800m. Assim, os melhores atletas não são necessariamente aqueles que obtém acomulações de lactato sanguíneo mais elevadas após um esforço máximo. (2) Apesar do que acontece com os corredores de 800m, não existe correlação entre os valores de LM no final do teste de duas velocidades e os valores obtidos em competição nos corredores de 400m. Este facto parece sugerir que a elevada dependência do metabolismo anaeróbio nos corredores de 400m fazem com que a distância de 300m utilizada no teste se torne insuficiente para reproduzir o esforço em competição.
Deste modo, novos estudos são necessarios para se determinar uma distância adequada para a realização de testes de duas velocidades em corredores de 400m, de modo a que os valores de LM obtidos no final do teste evidenciem uma boa correlação com os obtidos em competição. Em relação aos corredores de 800m cuja prestação não está tão dependente do metabolismo anaeróbio, a distância de 300m parece adequada para distinguir diferentes níveis de prestação anaerobia. Contudo, torna-se necessário a realização de outros estudos para determinar se outras distâncias não nos permitirão atingir níveis de corrrelação mais elevados.